Don’t believe the hype – usos corporativos para a blockchain

23/05/2016 | por Admin | em Educação

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Está em curso uma corrida pela inovação nos mais diversos setores, mas especialmente nos setores financeiro, saúde e energia, com várias tentativas de inserir no funcionamento dos seus negócios a blockchain: a tecnologia revolucionária base da criação da moeda digital bitcoin. O objetivo dessas iniciativas é criar aplicações para aumentar a eficiência em diversos processos internos, além de criar novas oportunidades de negócios.

Muitos creem que a blockchain é a maior inovação desde o surgimento da Internet e, por isso, tanto corporações gigantes quanto as startups de um homem só estão fazendo de tudo para não perderem esse barco. Apesar disso, a maioria das empresas não tem um entendimento claro de como essa tecnologia pode ser útil e quando ela deve ser aplicada.

Durante a Consensus 2016, a maior conferência sobre blockchain e bitcoin do mundo, realizada no início do mês em Nova York, tive a oportunidade de conhecer e conversar com William Mougayar, autor do livro, lançado em abril deste ano, “The Business Blockchain: Promise, Practice and the Application of the Next Internet Technology”.

Mougayar é investidor da Virtual Capital Ventures e conselheiro de algumas das mais conhecidas organizações de blockchain, como a Fundação Ethereum e autor de diversos livros sobre economia digital.

Em seu mais recente livro, ele tenta ajudar empresários a pensar sobre blockchain sob uma perspectiva holística. Muita gente pensa que a blockchain só está relacionada com criptomoedas e redes de registro distribuídas, mas a verdade é que ela vai muito além disso.

Enquanto algumas empresas estão buscando a blockchain para melhorar ou diminuir os custos de processos específicos, existem outras que buscam abordagens mais disruptivas, inovando a despeito dos sistemas existentes ou regulações restritivas.  Sua tese defende que essencialmente a blockchain é uma grande promessa como plataforma de inovação, não meramente de processos, mas sim com a capacidade de gerar modelos de negócio absolutamente inéditos.

Mougayar afirma que a blockchain tem capacidades extraordinárias e versáteis, que fazem com que seja possível traçar muitos paralelos com o nascimento da Internet, na qual ele esteve ativamente presente desde seus primórdios.

Mas, afinal, o que é blockchain?

Para obter essa resposta, precisamos entendê-la sob três diferentes abordagens: técnica, empresarial e legal. No lado técnico, você pode entendê-la como um banco de dados de retaguarda que possui um registro distribuído. No campo empresarial, é uma rede de troca de valores entre pares. É um mecanismo que valida uma transação e a torna válida do ponto de vista legal também. Não requer ninguém como intermediário. E aí que entra também o aspecto legal e regulatório da tecnologia.

Ainda é muito cedo para vermos como a blockchain irá afetar os consumidores e a sociedade. A grande mudança ocorrerá quando tivermos interações peer-to-peer (ponto a ponto) autenticadas na blockchain. Por exemplo, o OpenBazaar é uma aplicação descentralizada de comércio online peer-to-peer que funciona na blockchain do bitcoin. Ela permite que qualquer um compre ou venda qualquer coisa para qualquer pessoa no mundo todo, sem que haja um intermediário cobrando comissões ou taxas, como acontece no eBay, por exemplo.

A blockchain é uma plataforma de software e um ecossistema. Como analogia, atualmente, a Java é uma das mais famosas linguagens de programação da web. Se você quiser escrever uma aplicação, provavelmente você irá utilizar a Java. Hoje, temos cerca de 10 milhões de programadores que podem fazer isso utilizando essa linguagem. Em comparação, temos algo em torno de 5 mil programadores que fizeram alguma coisa com o blockchain. Isso dá a dimensão de quão no começo do desenvolvimento da tecnologia ainda estamos.

Dentre todos os segmentos da economia, a indústria que está atualmente mais envolvida e buscando soluções relacionadas à blockchain é, sem dúvida, a financeira. Quem trabalha em um banco está ao mesmo tempo com medo e animado em relação à blockchain. Como ela permite a realização de transações sem um intermediário, é natural que estejam preocupados sobre qual será o papel dos bancos no futuro. E, ao mesmo tempo, estão ansiosos com o que cada banco está desenvolvendo dentro de seus centros de inovação.

Outro setor que está atento aos desenvolvimentos é aquele que envolve serviços governamentais, que obrigam o cidadão ir a um departamento para, por exemplo, fazer o registro do seu veículo ou de sua propriedade. Tudo isso poderia ser feito facilmente no blockchain, diminuindo custos e burocracia para ambos lados.

O bitcoin é a primeira criptomoeda que atingiu larga escala e, consequentemente, a blockchain é a único no mundo a obter adoção, processamento em torno de 200 mil transações por dia.

Apesar da blockchain dominante do bitcoin, por estarmos diante de uma tecnologia de código aberto, qualquer um pode criar um blockchain.

Essas novas redes de registro criptográficos podem ser públicas, completamente privadas, ou abertas para usuários selecionados, o que chamamos de blockchain permissivas. A blockchain é o conceito, não o software específico utilizado pelo bitcoin, logo existem dúzias de modelos competindo que apareceram ao longo dos últimos sete anos.

A IBM, por exemplo, está financiando a Hyperledger, um projeto de código aberto que foi originado pela Fundação Linux. Mais de 40 companhias estão envolvidas na empreitada, incluindo nomes como Accenture, JPMorgan, Fujitsu e VMWare, além de startups, que incluem a Blockstream e a Gem. A IBM crê que a blockchain é um conceito fundamental que um grupo aberto de empresas sustentando um padrão irá ajudar a penetrar o mercado da mesma forma como ocorreu com o Linux.

Alguns dizem que as grandes armadilhas da blockchain pública decorrem da ausência de habilidade para customizá-las e como entidades reguladas podem se sentir desconfortáveis trabalhando com blockchains públicas devido sua natureza pseudoanônima, algo que é necessário para manter privadas as transações de dois indivíduos quando essas transações forem publicadas.

A Ethereum é outro modelo de blockchain que está ganhando bastante atenção, não apenas como uma rede descentralizada de registro, mas também como a segunda criptomoeda com o maior valor de mercado, que já superou o US$ 1 bilhão. Nós escrevemos um ebook sobre essa tecnologia, que você pode encontrar clicando aqui.

As blockchain privadas, por sua vez, existem por causa de privacidade, algo que não existe nas redes públicas. Contudo, muitas vezes o pseudonimato oferecido pelas redes públicas são tão bons quanto aquele existente na rede privada.

Enquanto as blockchains permissivas proveem privacidade sem a necessidade do pseudonimato, ainda existem ineficiências devido às redundâncias de infraestrutura requeridas.

Apesar do crescente interesse em Ethereum e no Hyperledger, o bitcoin possui a única blockchain hospedando aplicações comerciais ativas. Informações públicas mostram que mais de US$ 1 bilhão foram investidos na rede do Bitcoin, mas a realidade é que esse montante é apenas uma fração do total, já que muitos bancos não estão divulgando os montantes que eles vêm investindo no desenvolvimento da tecnologia.

O bitcoin passou por diversos testes de estresse e ao longo de sete anos formou a estrutura para que a rede esteja efetivamente funcionando há um bom tempo sem apresentar grandes problemas.

Nenhuma outra blockchain ainda chegou sequer perto da rede do bitcoin, e pelo ritmo de desenvolvimento de novas alternativas talvez ainda demore bastante tempo para que o potencial dessas aplicações privadas esteja mais claro. Além da adoção, o questionamento que fica é se os novos entrantes no mercado conseguiram incorporar os aspectos ligados à transparência radical e à descentralização, os principais pilares da blockchain original do bitcoin.

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