Futuro do Ethereum e o cripto Lehman Brothers

25/07/2016 | por Admin | em Tecnologia

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Depois de acaloradas semanas de debate em relação ao futuro dos ethers (ETH) sequestrados por hackers que descobriram falhas no aplicativo DAO, a comunidade de mineradores da rede Ethereum tomou a decisão, no último dia 25 de julho, de implementar uma divisão na rede (conhecida pelo termo em inglês “hard-fork”).

Em outras palavras, os entusiastas das redes descentralizadas presenciaram pela primeira vez na história uma mudança no código, que deveria, por princípio, ser imutável.

Com isso, cerca de 85% dos ethers foram movidos para uma nova blockchain e o restante, que optou por não implementar o novo código, continua armazenado na rede original e passou a ser chamado de Ethereum Classic (ETHc). Os novos ethers viram sua cotação disparar no mercado depois da decisão da cúpula do Ethereum e rapidamente recuperaram valor, chegando a valer US$ 14 por unidade.

O caso pode ser comparado à quebra de um banco, que consegue ajuda financeira de um banco central, que é comandado por pessoas que levam em consideração apenas os interesses financeiros dos sujeitos envolvidos, em detrimento ao respeito das regras acordadas.

Muitos dos investidores da plataforma DAO são mineradores da rede Ethereum, que haviam perdido cerca de US$ 40 milhões devido às falhas no código do aplicativo. Isso fez com que os mesmos se organizassem e resolvessem optar por um caminho oposto ao que vimos no caso do banco Lehman Brothers, cuja falência em 2008 foi o estopim para a grande crise financeira.

Na época, as autoridade americanas alegaram que havia um risco moral em socorrer o Lehman Brothers e que isso sinalizaria para o mercado que a tomada de risco irresponsável poderia ocorrer sem consequências. O tempo mostrou que essa decisão não foi a mais acertada, pois alastrou risco sistêmico em um mercado já combalido e no final das contas o resgate geral do sistema financeiro teve um custo muito superior ao necessário para socorrer apenas o Lehman.

O DAO foi considerado “too big to fail” e a divisão da rede foi possível porque houve consenso entre a maioria dos mineradores para que isso fosse feito. Mas é preciso frisar o interesse deles em reaver o dinheiro perdido com o ataque promovido ao DAO. É a clássica “tirania da maioria”.

O fato é que o Ethereum comprometeu seus princípios para salvar um cliente, o DAO. Ou seja, o “banco central” do Ethereum diretamente recapitalizou o “banco comercial” DAO monetizando seus débitos. E isso porque até mesmo alguns desenvolvedores de código que atuam no Ethereum são investidores no DAO. O conflito de interesses ético e moral nesse caso é gigantesco.

E isso tudo aconteceu porque o DAO não foi testado corretamente e continha uma série de vulnerabilidades que foram sublinhadas por vários especialistas dias antes do ataque à plataforma.

A questão que fica é: veremos novas divisões da rede Ethereum no futuro? Esse caso pode abrir precedente para que outras redes, como a do próprio bitcoin, efetive suas propostas de hard-fork, seja por qual motivo for?

O criado do Ethereum, Vitalik Buterin, disse em entrevista ao Financial Times que o caso não abrirá precedente, mas foi ele também que gritou aos quatro cantos que o Ethereum era uma rede imutável. Bastou que seus clientes e que seu próprio dinheiro fosse sequestrado, por única e exclusiva culpa individual, para que ele voltasse atrás de suas convicções e apoiasse o hard-fork.

O Ethereum precisa ser muito mais rigoroso em relação a qualidade do código e o modelo de governança. É preciso revisá-lo e testá-lo, se ele quiser ser levado a sério.

O hard-fork que ocorreu pode ser visto como uma mancha na história das criptomoedas. A imutabilidade da rede precisa ser mantida para que não dependamos de decisões oriundas de seres humanos que têm interesses financeiros envolvidos. Porque se for pra ser assim, é melhor continuar no sistema financeiro tradicional.

O Ethereum mostrou-se preso aos vícios do passado ao invés de tomar o risco de construir o futuro da governança da rede.

“Em código, nós acreditamos”, e que assim seja.

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