Roubo, confisco ou calote?

08/08/2016 | por Admin | em Economia

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Imagine que o seu gerente do banco entre em contato para informar que o sistema da instituição financeira sofreu um assalto que ocasionou a perda de milhões de dólares de alguns clientes. E que, por isso, mais de um terço do seu saldo será destinado para cobrir os prejuízos de outros clientes.

Pois é, foi exatamente o que aconteceu com os usuários da Bitfinex, que foram obrigados a dividir o prejuízo que a corretora alega ter tido com o ataque hacker que sacou mais de 120 mil bitcoins na semana passada, uma perda estimada em mais de US$ 60 milhões.

Nesta segunda-feira, a plataforma da corretora de Hong Kong voltou a funcionar permitindo aos clientes acessar suas contas, ainda apenas em modo-leitura, e verificar que cerca de 36% dos saldos foram deduzidos, tanto em bitcoin quanto em dólar. O valor abatido de todas as contas foi usado como parte da estratégia anunciada para distribuir, entre todos os clientes, os prejuízos decorrentes do segundo maior ataque da história do bitcoin.

A ironia disso tudo é que a tecnologia do bitcoin está enfrentando esses problemas de segurança devido ao uso da moeda digital dentro do sistema financeiro vigente, na plataforma que oferecia os serviços mais sofisticados do mercado, com operações de alavancagem e swap em dólar e um dos livros de oferta mais líquidos do mercado.

Em contrapartida do confisco compulsório, a Bitfinex criou o token BFX, que vale US$ 1 por unidade, e o trocou pelos 36% do saldo de cada usuário, proporcionalmente e com a cotação do bitcoin fixada em US$ 604. A empresa diz que, em breve, estes tokens poderão começar a ser negociados. Contudo, muitos usuários acreditam que este token não possui qualquer valor e que haverá uma forte corrida por saques, assim que a plataforma da corretora voltar a operar normalmente.

O que ainda não se sabe é se a estratégia adotada pela Bitfinex é juridicamente plausível. Com sede constituída nas Ilhas Virgens Britânicas, a empresa, em teoria, só pode ser processada naquela jurisdição, mas muitos advogados especialistas em ativos digitais estão se perguntando se as autoridades locais de Hong Kong irão tomar alguma atitude. O mesmo se aplica a empresa BitGo, que detinha uma das três chaves criptográficas das carteiras multi-assinadas dos usuários. Com sede na Califórnia, a empresa pode também ser alvo de ações na justiça de clientes que se sintam prejudicados.

O caso nos faz pensar como ainda o mercado carece de maior credibilidade e o quão arriscado ainda será esse mercado enquanto instrumento financeiro não regulado.

Apesar da tecnologia do bitcoin permitir que seus usuários tornem-se donos e guardiões de seu próprio dinheiro, ainda é bastante comum que se mantenham grandes somas sob custódia das corretoras.

O ideal para os traders é deixar nas corretoras somente o montante mais líquido de suas carteiras e armazenar o restante de suas moedas digitais de forma segura e offline. Nenhuma corretora deve ser usada como carteira de bitcoins. Armazenar seus bitcoins de forma segura é um dever de todo usuário da tecnologia e, se bem feito, lhe garante tranquilidade em momentos tensos como este.

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